De uns tempos pra cá, ela chega atrasada na aula. Cruzo os braços, com certo tédio, a aula começou há meia hora e estou desde então desconfiado com aquela cadeira vaga ao meu lado. Não adianta. Você prestar atenção no professor é traduzido por ela como “socorro, me faça desviar o olhar desse cara que se atreve a dar aulas decentes”. Ela senta ao meu lado. Digo oi, ela diz oi. Talvez pudesse ficar por aí se não a conhecesse. E de fato não a conheço, mas ela acha que somos melhores amigos, pelo simples fato de que eu a ouço, ou finjo ouvir.
Ela agora está em uma agência publicitária, por isso chega sempre atrasada, diz ela. Ela não pára de falar. Forço os olhos na direção do professor, tentando fazer papel de estudante dedicado, ela olha para a mesma direção, não entendendo o que estou olhando e continua. E fala, fala. Tem 19 anos e faz musculação. Ginástica. Aplica botox. Pinta o cabelo. O namorado é cirurgião plástico. Ela quer colocar implantes nos seios, presente de aniversário que exigiu dos pais. Neste final de semana, vai numa rave em alguma fazenda ou coisa que o valha, para dançar por 22 horas.
A mesma ladainha sempre que conversamos. Conheço todos os detalhes da vida dela sem sequer lembrar direito seu nome. Mal respondo, quando faço isso, ela fica visivelmente ansiosa, esperando meus pulmões se colocarem entre as palavras que falo. E então me interrompe e continua. A aula inteira. O professor me olha como se eu fosse um imbecil disposto a tudo, até ser reprovado, para levar no papo aquela loira aguada.
Nesta noite eu a conheço, profunda e completamente. Como a conheço toda noite que tenho aula com ela. Como nunca vou me conhecer. Como nunca ninguém vai me conhecer. Penso nisso ao sentir raiva dela. Penso nisso quando olho pra ela com admiração.
quinta-feira, 31 de maio de 2007
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