quinta-feira, 31 de maio de 2007

Intimidade

De uns tempos pra cá, ela chega atrasada na aula. Cruzo os braços, com certo tédio, a aula começou há meia hora e estou desde então desconfiado com aquela cadeira vaga ao meu lado. Não adianta. Você prestar atenção no professor é traduzido por ela como “socorro, me faça desviar o olhar desse cara que se atreve a dar aulas decentes”. Ela senta ao meu lado. Digo oi, ela diz oi. Talvez pudesse ficar por aí se não a conhecesse. E de fato não a conheço, mas ela acha que somos melhores amigos, pelo simples fato de que eu a ouço, ou finjo ouvir.

Ela agora está em uma agência publicitária, por isso chega sempre atrasada, diz ela. Ela não pára de falar. Forço os olhos na direção do professor, tentando fazer papel de estudante dedicado, ela olha para a mesma direção, não entendendo o que estou olhando e continua. E fala, fala. Tem 19 anos e faz musculação. Ginástica. Aplica botox. Pinta o cabelo. O namorado é cirurgião plástico. Ela quer colocar implantes nos seios, presente de aniversário que exigiu dos pais. Neste final de semana, vai numa rave em alguma fazenda ou coisa que o valha, para dançar por 22 horas.

A mesma ladainha sempre que conversamos. Conheço todos os detalhes da vida dela sem sequer lembrar direito seu nome. Mal respondo, quando faço isso, ela fica visivelmente ansiosa, esperando meus pulmões se colocarem entre as palavras que falo. E então me interrompe e continua. A aula inteira. O professor me olha como se eu fosse um imbecil disposto a tudo, até ser reprovado, para levar no papo aquela loira aguada.

Nesta noite eu a conheço, profunda e completamente. Como a conheço toda noite que tenho aula com ela. Como nunca vou me conhecer. Como nunca ninguém vai me conhecer. Penso nisso ao sentir raiva dela. Penso nisso quando olho pra ela com admiração.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A conspiração de Popeye

As crianças pré-Youtube, entre as quais me incluo, também tinham certo poder de escolha. Podíamos montar nossos playlists a partir de um time poderoso de desenhos animados, distribuídos em três ou quatro canais. Gostava muito e ainda gosto do Perna-Longa, sempre tirando todo mundo pra louco, do Pica-Pau, baita debochado, e da Caverna do Dragão, apesar de me irritar aquele unicórnio-jumento, sempre fazendo alguma cagada que atrasava a turma justamente quando todos estavam prestes a fugir daquele mundo bizarro.

No entanto, outras atrações passavam batidas. Não me convencia nenhum exemplar da trupe criada por Hanna-Barbera (que, admito, só há pouco descobri se tratar de uma dupla e não de uma tia sem talento pra coisa). Mas detestava mesmo era o Popeye. Uma mulher mala, esquisita, mal-vestida e magricela era o motivo para que Brutus e o Popeye vivessem se esmurrando. Não que eu tivesse um senso de beleza muito desenvolvido. No entanto, eu via na telinha Xuxa, Mara-Maravilha e Angélica. E Olívia Palito, meus amigos, estava muito longe, esteticamente falando, daquelas musas-mirins voluptuosas (que, aliás, eram tão malas quanto a tripa seca).

Popeye começou em 1933 e é exibido até hoje. Nesse meio tempo, o padrão estético mudou um bocado. Na verdade, emagreceu muito. As modelos esqueléticas, sem cérebro, com caras esquisitas e, pasmem, roupas estranhas, passaram a ser o objeto de desejo e fascínio de homens e mulheres do mundo inteiro. Uma geração nascida justamente no fatídico período de exibição das aventuras do marinheiro.

Percebeu a conspiração? Popeye foi a arma elementar da indústria da moda para nos convencer a idolatrar mulheres como Olívia Palito! Ao invés de comer feito bicho o tal espinafre miraculoso, Popeye deveria alimentar aquela desnutrida. Você já viu Olívia Palito encher a barriga em algum episódio? Pois é, está aí, Popeye e Brutus se matavam por causa de uma anoréxica.

Eis o poder de uma simples animação na formação dessa linda sociedade neoliberal. Agora imagina o que algo como Rebeldes fará à nossa civilização nas próximas décadas... Pensando bem, Popeye não é tão ruim assim.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007

A peça que nunca acaba

A cronologia de uma tragédia no Brasil é ofensivamente previsível. Em um dia qualquer, os parâmetros do grotesco e da desumanidade, já absurdos no país, são ultrapassados. A barbárie contra um inocente como João Hélio desperta o clamor generalizado por justiça ou até mesmo por vingança. A polícia trabalha de verdade e caça todos os culpados. A caminho da cadeia, os bandidos são hostilizados, em cena devidamente filmada pelos grandes canais de televisão. Autoridades declaram que medidas enérgicas serão tomadas. Os parentes da vítima estão no Jornal Nacional. Em pouco tempo, chegam a Brasília pedindo soluções. O roteiro chega ao seu ápice: políticos compenetrados apertam mãos selando pacotaços e outros remendos à lei.

As novas medidas são comemoradas como vitória da democracia. A população e algumas celebridades globais vestem branco, saindo às ruas. A mídia apóia com alta dose de emotividade e sensacionalismo, celebrando os esforços pela paz. Alguns meses depois, a polícia ou até os próprios presidiários matam na cadeia alguns dos bandidos. Os pacotaços e as leis caem no esquecimento, sem sequer terem sido aplicados uma única vez.

Mesmo em casos como esse, de repercussão pública, esse ciclo de violência e morte é apresentado como algo breve. Não acredite nisso. Este ciclo nunca acaba porque é mais do que um ciclo. Não tem início ou final. É uma peça trágica, encenada todos os dias, todas as horas, todos os minutos. Nessa tragédia se repetem os mesmos personagens, as mesmas vítimas, os mesmos culpados e as mesmas falhas de script. Infelizmente, apenas o cenário muda sem parar. O cenário é o Brasil do passado. É o Brasil do presente. É, cada vez mais, o Brasil do futuro.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Trote

Eles estão na vanguarda da moda. Eles dirigem carros possantes e equipados. Eles serão os primeiros a comprar o Iphone. Eles estão nas festas mais badaladas. Eles provam as mais novas e potentes drogas sintéticas. O mundo é desenhado para eles e eles pincelam esse mesmo mundo. Eles marcam seu ingresso na vida adulta com grande estilo. Na universidade, a grandeza vindoura de suas vidas é demonstrada logo de cara, no trote. Por isso, não poderiam ser apenas brincadeirinhas bobas. Até parece. Não...eles têm estilo, fazem do trote um evento memorável.

Na última segunda-feira, em São Paulo, na Unicid (Universidade Cidade de São Paulo), sua criatividade mostrou toda a força. Vinte e oito calouros foram amarrados uns aos outros e obrigados a caminhar até a estação de metrô ouvindo insultos e sofrendo agressões. Genial, não? Impressionante que os veteranos, nem mesmo formados ainda, tenham conseguido realizar algo tão inteligente.

Quando todos pensaram que não haveria como tornar melhor a festa, uma idéia surge. Eles começam a cortar as roupas das meninas do grupo de calouros. Uma delas fica completamente nua. Ela tem 17 anos, chora, ouve xingamentos, é chamada de prostituta pela horda de excêntricos intelectuais. Implora para que parem, grita por ajuda, clama por seus pais. Não adianta, ninguém ouve. Apenas berram, comemoram, riem.

Cretinos da pior espécie? Não. Cidadãos do futuro. Médicos, advogados, arquitetos. Os mesmos que um dia terão filhos como a adolescente que teve as roupas arrancadas. Os mesmos a quem não será dado o direito de derramar uma lágrima sequer ao consolar a filha que foi destruída no momento de maior alegria de sua vida.